Meditando na cozinha

Meditando na cozinha - Dra Lilian - Pediatria e Acupuntura

Meditando na cozinha

Lembro uma tarde em que a mãe de uma grande amiga foi ao consultório. A agenda estava cheia e eu um pouco agitada. No intervalo entre um paciente e outro, ofereci-lhe um chá que eu mesma fiz questão de preparar. Fui para a cozinha e, como num passe de mágica, um cheiro perfumado de jasmim se espalhou pelo ar. Dona Lourdes me olhou e disse: “Nossa! Como você é rápida!”. Sorrimos e agradecida tomou o chá bem devagar.

Considero aquele momento um marco na minha vida. O comentário espontâneo, totalmente despretensioso de dona Lourdes, gerou em mim um desconforto seguido de uma reflexão. Percebi que na pressa e rapidez ao fazer o chá esqueci os ingredientes mais importantes: a minha presença e o sentimento de amor que sentia por ela. Tomei então consciência de que, na correria do dia a dia, podemos não estar inteiramente presentes em tudo o que fazemos e nem deixar fluir a nossa intenção e o nosso sentimento, o que traz repercussões dentro e fora de nós.  Ansiedade, agitação, sensação de que o tempo passa rápido demais, insatisfações, autocobrança, culpa, são algumas delas.

A meditação é uma prática que tem como objetivo pacificar a mente, despertar a nossa consciência para o momento presente e vivê-lo plenamente. Quando isto acontece, nos tornamos mais calmos, inteiros, felizes. Sinceramente, posso dizer que não é algo fácil, principalmente quando a mente inquieta faz uma coisa já pensando na próxima.

Foi o que senti ao fazer rapidamente o chá para a mãe da minha amiga, mas ela, com sua sabedoria, numa espécie de meditação,  saboreava atenta cada gole, num estado de calma, paz, cheia de contentamento.

Escolhi para vocês uma crônica da escritora e pesquisadora Sonia Hirsch. Em seus livros, Sonia fala sobre saúde, alimentação e muitas outras coisas que nos fazem bem. Tem uma linguagem convidativa, inspiradora, única e o que mais admiro em seu trabalho é a virtude de transformar, através de pesquisas e experiências próprias, um assunto complicado em algo simples, acessível e bem-humorado.

Meditando na cozinha - Dra Lilian - Pediatria e Acupuntura

Ilustração: Celina Gusmão

Esta crônica faz parte do livro Meditando na cozinha crônicas e receitas, e a ilustração é de Celina Gusmão.

“são muitas as formas de meditar

…todas com o mesmo objetivo: pacificar a mente, que não conhece limites e não para quieta um instante. Meditação é um jejum mental, onde se procura não pensar. Seja em silêncio ou cantando mantras, depois de um tempo as preocupações desaparecem e mesmo o principiante percebe que a mente se acalmou.

Cozinhar também pode ser meditação. Uma, porque leva tempo, exige paciência e entrega. Duas, porque se você não põe a mente no que está fazendo pode queimar a comida, salgar demais, temperar de menos, entornar o azeite, errar a receita e cometer toda sorte de erros e distrações, que acabariam em sabe Deus que tragédias!  Três, porque essa combinação de paciência, entrega e atenção dá margem a micromeditações – enquanto você faz não pensa, não julga, apenas observa.

Por exemplo, lavando um maço de cebolinha verde. Claro que sua porção viking poderia cortar de um golpe as raízes, geralmente com um bom tanto de bulbos junto, descartar sem mais delongas as folhas meladas e passar tudo debaixo  da torneira sem nem se dar conta do que está fazendo.

Mas que delicadeza trabalhar com as cebolinhas na água corrente separando os bulbos, puxando para baixo as folhas murchas e vendo finalmente a cebolinha aparecer perfeita! Não faz a menor diferença no gosto da comida, mas estabelece a prática da contemplação da natureza, o que já é uma forma de meditação.

Ou seja, faz diferença para você.

Os japoneses têm longa tradição tanto na arte de meditar quanto na de lidar com vegetais, produzindo lindos pratos a partir das formas, cores e texturas que oferecem ao paladar.

Têm também as melhores facas e tábuas, e uma infinidade de utensílios impensáveis antes e indispensáveis depois – pequenos raladores para gengibre, descascadores, peneiras de bambu, colheres, espátulas, pinças, recipientes para cozinhar no vapor – enfim, a boa loja de produtos japoneses é a disneilândia da cozinha.

Agora, no tocante a panelas, sejamos Brasil: as de pedra-sabão, mineiras, são imbatíveis. Feitas de uma coisa completamente natural, pedra, curada no forno com outra coisa completamente natural, óleo. Pesadas. Não pode lavar com detergente porque entranha, só sabão e esponja. Em compensação, nenhuma outra panela vai refogar cebolas no azeite com tanta ternura quanto a de pedra: devagar, cozinhando cada partícula de cebola até deixá-la doce e transparente, e se continuar fica dourada e vira manteiga de cebola, uma coisa maravilhosa para passar no pão. (Não rende, ponha no mínimo dez cebolas.)

Importantíssimo no ritual da cozinha: não perturbá-la batendo colheres na boca das panelas, fazer tudo silenciosamente.

A leveza ao pousar a tampa no bule  ensaia a leveza da vida. Mexer uma panela prestando atenção é igual a desenhar uma  mandala, faz efeito no ser inteiro.

Comida e alma se dão muito bem. Cozinhar pode ser uma prática tão rica em significados e insights quanto qualquer outra.

Além de acalmar a mente, como toda meditação que se preza.”

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