O que diz a sua mão?

O que diz a sua mão? - Dra Lilian - Pediatria e Acupuntura

O que diz a sua mão?

Quando era pequena, tinha a mania de observar as mãos das pessoas. Eu não conseguia explicar o que me acontecia. Quando chegavam visitas lá em casa, logo olhava para suas mãos e, dependendo do que sentia, ou saía correndo e me escondia (minha mãe sempre me achava).  Ou sentava ao lado, feito gato que, quando gosta de alguém, vai se aconchegando devagarinho. O duro para mim e constrangedor para minha mãe, era quando ela me fazia sair do meu esconderijo. Voltar para sala e ser educada: além de cumprimentar a pessoa, tinha também que beijá-la. Dividia as minhas impressões com minha irmã mais velha que, por ter a mesma mania, conseguia me entender. Ao cumprimentar a visita, sentindo sua mão na minha, o que era uma sensação virava uma constatação ou não, o que me deixava intrigada e reflexiva. Fui entender bem mais tarde, já adulta, o porquê desta mania e também o porquê de me enganar com algumas mãos.

Criança é sensível e espontânea. Muitas vezes não consegue verbalizar uma sensação e, sobretudo, explicá-la para um adulto que vive com pressa e cheio de afazeres. Sempre deve haver um motivo quando uma criança se nega relutantemente a fazer algo que ela não quer.

À medida que fui crescendo, não deixei de olhar as mãos.  Mas a espontaneidade foi dando lugar ao racional. Já não corria mais daquelas que me impressionavam. Tentava buscar uma explicação, fazia perguntas. Abandonei meu desejo de criança, de ser empacotadeira de loja de presentes para ouvir diariamente pessoas com suas histórias de sofrimento. E procurar ajudá-las, virou minha profissão.

Meu pai tinha as mãos lindas… Trabalhava diariamente no Ceagesp, vendia frutas e legumes, estudou até a 4ª série do curso primário. Suas mãos eram firmes, fortes, cheias de calos. Em suas horas de folga, ia para a garagem de casa e quando sentava na frente de uma tela branca, com sua paleta de tintas e um pincel, uma mágica acontecia: suas mãos se tornavam leves e delicadas, como que flutuassem, as cores e as imagens surgiam, enchendo o ar de poesia. Era autodidata. Aprendeu sozinho a tocar vários instrumentos. Sua letra era bonita e sua assinatura mais ainda. Era ele quem assinava meu boletim escolar. Assobiava e cantava música italiana… Momentos em que meu coração de criança se enchia de alegria!

E o que tudo isso tem a ver com as mãos?

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Meridiano do Coração

Na Medicina Tradicional Chinesa, a nossa energia percorre as profundezas dos órgãos e vísceras até a extensa superfície da pele e vice-versa, passando pela cabeça, tronco e membros, através de caminhos invisíveis, porém reais, chamados meridianos. Os meridianos que chegam na palma da mão, vêm do coração.

O coração, segundo a nossa Medicina Ocidental, tem a função de bombear o sangue por todo o corpo, levando oxigênio e nutrientes para todas as células, mantendo-nos vivos.  Na ampla visão da Medicina Chinesa, além desta função, o coração é considerado o “Imperador”, soberano por natureza, que além de governar todos os

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Meridiano do Mestre do Coração

órgãos, é responsável pelos sentimentos, emoções e pensamentos. Nele moram a mente, o espírito, a consciência. É de lá que desabrocha a alegria e, sutilmente a felicidade de existir.

Na palma da mão chegam dois meridianos: o do coração e do mestre do coração (que além de proteger o Imperador, executa suas ordens), neste existe um ponto especial (CS8), bem no centro da mão,

chamado pelos chineses de “palácio do trabalho”. Quando ouvi este nome pela primeira vez, me emocionei. Veio imediatamente a imagem de um ser que se realiza através das mãos, vivendo do seu trabalho, cultivando seus sonhos e amores. Capaz de transformar a sua existência em algo belo e sagrado.

Muito complicado? Ou simples demais?

Depende do jeito que está seu coração. Se ele se encontra aflito, oprimido, ansioso e angustiado, talvez os olhos vejam somente as dificuldades e as mãos, inseguras, se apegam a tudo o que está em volta. Se ele está calmo e tranquilo, os olhos confiantes  se voltam para o horizonte e conseguem enxergar com sabedoria. As mãos realizam, mas não se apegam.  O espírito brilha, refletindo mesmo em tempos difíceis, a alegria – sentimento natural do coração.

Quando nos conscientizamos que através das mãos podemos expressar o que temos dentro do nosso coração, tudo o que vamos fazer ganha outra dimensão. Desde um simples afago ao ato de cozinhar ou escrever, lavar, passar, cozinhar, plantar, costurar, cumprimentar, examinar os pacientes, manusear as agulhas, etc.

Tenho certeza que se meu pai pudesse, teria vivido de arte, mas o sustento de sua grande família foi mais importante e decisivo. Aceitou seu trabalho árduo. Através dele, conseguiu, sim, expressar a bondade e o amor do seu coração quando entregava em doação, caixas e caixas de alimentos para creches, orfanatos e asilos. Mas era nos momentos em que ficava sozinho na sua garagem, concentrado dentro de si, que sua alma de artista, com toda a beleza e grandeza, fluía através dos movimentos suaves das suas mãos para as telas.

Imagino que seja por isso que, quando pequena, prestava atenção nas mãos das pessoas, tentando buscar nelas, a intenção de seus corações.

E as suas mãos? Têm conseguido expressar o melhor que existe em seu coração?

COMENTÁRIOS (4)

  • CREUZA BERG

    Este texto é um poema! Parabéns! Me levou à infância, recordando as mãos cuidadoras de minha mãe. No dia que ela morreu, eu olhava suas mãos e lembrava dos cuidados, do alimento, dos curativos, das carícias, das tranças nos cabelos… As mãos de minha mãe são a parte dela que ficou em meu coração.

  • Que história linda! Emocionei. Sempre tive essa forte ligação com as Mãos . É o que me atrai ou me afasta, nos outros. Muito feliz com o que as minhas mãos me proporcionam. Abraço.

  • Que bonito tudo isso, Lilian… Da sua sensibilidade sempre sem tamanho, a linda história do seu pai, que lembra a história do meu e me emociona duplamente, passando pela análise dos canais de energia que se comunicam pela palma das nossas mãos com nossa maior verdade. Grata sempre <3

    • Lilian Kiyomura

      Oi Lene! É muito bom quando conseguimos emocionar alguém seja por palavras, pela escrita, pelos gestos. Aprendi que a emoção move o Qi, desobstruindo o que está estagnado. E a pergunta é: – Você já se emocionou hoje? Grande beijo

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