Preocupação faz mal à saúde?

Preocupação faz mal à saúde? - Dra Lilian - Pediatria e Acupuntura

Preocupação faz mal à saúde?

Preocupação é hereditária? Minha avó era preocupada; minha mãe, muito preocupada; minha irmã idem; e eu, adivinha? Mas, a preocupação não é heditária, são apenas hábitos que se repetem.

Hábitos que se repetem

Pois é… Os hábitos também passam de geração para geração. Mas, eu não queria manter esse círculo de repetição. Pois, conseguia enxergar o desperdício de energia nesta atitude.

Preocupações excessivas

Alguém muito querido vinha para o almoço no domingo. O que fazer? Comprar isto, aquilo, puxa! Ele adora este prato e também aquele outro, vamos convidar mais alguém? A casa deve estar arrumada e limpa, não podemos esquecer das flores. Aproveitar para lavar todas as cortinas, deixando um cheiro de frescor no ar. Qual toalha usar, a de linho branca? Precisa estar bem passada. E a sobremesa? Vamos fazer a receita nova? Esta era a preocupação da semana inteira de quem queria fazer o melhor, tamanho o carinho que se tinha pelo convidado.

Criança tem conexão 4G

Eu, pequena, observava a cena. Pulava amarelinha no quintal, um olho na casca de banana e outro na minha mãe correndo de lá para cá. Criança está ligada em tudo, parece que tem conexão 4G.

Almoço perfeito e Mãe cansada

O dia chegou. Tudo arrumado, hora do almoço, todos sentados na maior alegria, pois o convidado era muito especial. Mas observava o cansaço da minha mãe que, ao redor da mesa, ainda insistia em servir a todos. E, no final, nem conseguia curtir aquele momento… O cafezinho para finalizar: açúcar branco, mascavo ou adoçante? Ou prefere um chá?

Desculpava-se dizendo: “Quem cozinha não sente fome, pois precisa experimentar tudo antes”. Bem mais tarde, aliviada e contente pelos elogios, conseguia almoçar, exausta… Até hoje, aos 88 anos, ela é assim.

Problema grave

Estamos falando do excesso de preocupação diante de algo bom e pontual. Mas e se o assunto é grave? Uma doença, uma briga, a possibilidade de perder o emprego ou até o desemprego instalado, falta de dinheiro, dívidas, algo que não depende de nós ou está fora do nosso controle?  E se este sofrimento persistir por muito tempo?

Medicina Tradicional Chinesa

Na Medicina Tradicional Chinesa (MTC), corpo, mente e emoções são inseparáveis. O que acontece em um, reflete sobre o outro.

A preocupação e os pensamentos fazem parte do ser humano. Porém, o que o adoece é a preocupação e os pensamentos intensos e até obsessivos. Pois, podem alterar a circulação da energia Qi (ou chi) que, quando não tratada, traz seguramente estragos em vários níveis, como no corpo e no espírito.

Contudo, a digestão é a mais afetada pelo excesso de preocupação. Os chineses falam do sistema energético Baço/Pâncreas (que inclui o Estômago), responsável por todo o processo digestivo e pela energia extraída dos alimentos e bebidas ingeridas. Esta energia, quando se junta ao ar que respiramos, forma uma energia maior ainda que nutre e fortalece todos os órgãos do corpo. Este sistema energético gera também o pensar e ter idéias, opiniões, capacidade de reflexão e raciocínio. Também, permite o fluir de sentimentos como solidariedade, compaixão e simpatia. Também, como: a percepção dos sabores, inclusive do sabor da vida.

Como a preocupação se reflete na prática?

Quando uma preocupação ou um pensamento surge constantemente na nossa cabeça nos inquietando, começa a atrapalhar inclusive, a relação com o outro, o humor e o sono. Então, podemos apresentar sintomas que vão variar conforme a intensidade e o tempo de duração das preocupações. Antes de uma entrevista de emprego ou de uma prova difícil podem haver, por exemplo: falta de apetite, diarréia, intestino preso ou ainda, gases. Porém, uma vez resolvida a preocupação, o equilíbrio retorna, os sintomas atenuam e a vida volta ao normal.

Preocupações duradouras

Quando a situação é mais duradoura, por meses ou até anos, uma queixa comum além das alterações digestivas é a sensação de peso (independente de estar ou não obeso). Causando corpo pesado, pernas pesadas, às vezes dormentes e inchadas. Assim, há desânimo, preguiça, falta de vontade, memória ruim, preguiça até para pensar. Também, barriga distendida (aumentada) e gases. Se ainda não bastasse, surge também o refluxo e a gastrite. Muitas vezes, o alimento estufa o estômago. As fezes podem estar amolecidas ou ainda, ao contrário, endurecidas. Dor abdominal.

Pensamentos excessivos

Pensamentos excessivos, que não se transformam em decisões e ações podem gerar uma sensação de vazio interior, um sentimento grande de incapacidade de ajudar a si e ao outro. Depressão. Melancolia. Falta de vitalidade. Cansaço. Falta de apetite (até anorexia), ou então, apetite exagerado, tendência a engordar. Desejo incontrolável de doces.

Este quadro com pensamentos excessivos pode acontecer em adultos, mas também em crianças, adolescentes e, principalmente, jovens que estão prestando o vestibular.

Pensar muito, preocupar-se demasiadamente; estudar, raciocinar, concentrar-se, memorizar,  por horas seguidas, sem pausas; passar muito tempo sentado sem nenhuma atividade física, vão repercutir na saúde.

Como pensar menos?

Pensar e se preocupar demais são hábitos que podemos adquirir no decorrer da nossa vida. Embora não sejam comportamentos fáceis de serem mudados, com energia e determinação podemos tentar.

Por exemplo, quem tem o hábito de tomar uma xícara de café com leite pela manhã? Para quem ama tomar leite, é quase impossível substituí-lo, mesmo que passe a manhã com a barriga estufada, arrotos e um pouco de preguiça.

Alimentação e preocupação?

Mas o que alimentação tem haver com a preocupação?

Como a nutrição é uma das fontes de energia para o corpo. Então, erros na alimentação em qualidade ou quantidade – comer demais ou de menos, alimentar-se muito tarde, passar muitas horas sem comer –  levam em torno de uns vinte anos para causar repercussões na nossa saúde. Talvez, seja por isso que é difícil mudar um hábito tão enraizado.

Uma má digestão altera o nosso humor, nossas emoções e o nosso pensar. E o inverso é verdadeiro: pensar demais, se preocupar constantemente, idéias fixas e obsessivas também alteram a digestão.

Lembra do nosso vestibulando? Passa meses sentado numa cadeira do cursinho, muitas horas por dia, estudando, pensando, raciocinando, memorizando, preocupando-se com o resultado no final do ano, sem tempo para um lazer, um exercício físico. Sofre pressões internas, quando cobra de si, e externas, representadas pela sociedade, amigos e familiares. Portanto, é muito comum ele apresentar gastrite, refluxo, intestino preso ou diarréia, mesmo tendo uma alimentação boa.

Tratando os sintomas da preocupação

Então, qual é a dica para melhorar os sintomas da preocupação?

Bem, antes de qualquer dica, primeiro tem um monte de perguntas, as quais você deve avaliar.

  • A digestão está boa?
  • Tem refluxo (algo voltando do estômago para garganta)?
  • Sente dor ou queimação no estômago?
  • Aperte devagarinho sua barriga, existe algum ponto dolorido?
  • A temperatura da barriga é igual a do seu peito, ou existem áreas que são mais frias que outras?
  • A digestão está lenta?
  • O intestino funciona diariamente?
  • Quando funciona, mesmo que seja dia sim e dia não, você sente realmente que o esvaziou, fica com a sensação de alívio e dever cumprido?
  • E as fezes? São firmes, compridas, fazem um mergulho olímpico na água do vaso?
  • Ou saem em bolinhas, ressecadas?
  • Fezes amolecidas?
  • Fezes que se desmancham?
  • Você tem muitos gases? E o cheiro? É inofensivo ou alguém percebendo, procura desesperadamente uma janela para respirar?

Caso sua digestão esteja realmente prejudicada, saiba que, não importa sua idade, estar vivo é a primeira condição para promovermos mudanças positivas e acredite: o corpo sempre tenta fazer o melhor com aquilo que oferecemos a ele, portanto, ao invés de ficar parado pensando, mãos à obra!

As dicas

Procure um bom profissional, sempre que as queixas forem importantes. Provavelmente precise rever seu cardápio, ou ainda, fazer uso de medicações, se for algo mais grave. Entretanto, na dúvida, consulte um terapeuta da sua confiança.

Se estiver com preguiça, sem vontade, ensaiou inúmeras vezes sua ida ao médico e não teve coragem de ir, mas tem consciência que precisa de ajuda, não desista de você! Procure um amigo que te dê forças e quem sabe ele pode até lhe acompanhar na consulta.

Algumas dicas já consagradas, mas vale a pena repetir:

Água em jejum

Pela manhã, em jejum, água – 1 a 2 copos, engolir conscientemente como se estivesse tomando um banho interior – lavando possíveis “sujeirinhas”, que ficaram no tubo digestivo, do jantar da noite anterior. Mas lembre, adeque a temperatura da água à estação do ano: primavera, verão, outono ou inverno.

Evitar líquidos nas refeições

Evitar líquidos durante a refeição, principalmente gelados, pois retardam a digestão. Sei que é algo difícil na nossa cultura, principalmente, porque quando comemos fora de casa, ao escolhermos o prato, o garçon logo pergunta: “O que vai beber?”. Quando vou a um restaurante japonês, o máximo que peço ao garçon para beber é um banchá, pois é quentinho, digestivo, faz bem e, normalmente, é cortesia da casa.

Refeições em intervalos regulares

Comer em intervalos regulares e à noite, após o jantar, esperar pelo menos 2 horas para dormir.

Estes são os pequenos passos para quem quer melhorar a digestão…  E, então, ter a disposição para encarar algo maior, que fará toda a diferença: mudar na sua alimentação, o que está lhe adoecendo.

E, quanto aos pensamentos e preocupações?

Na MTC cada órgão abriga uma emoção, uma atitude, uma estação do ano, um elemento da natureza, uma cor, um sabor e por aí vai…

Baço-pâncreas e a nutrição

O sistema baço-pâncreas – afetado pelas preocupações – está ligado à Terra, e sua propriedade é acolher, nutrir, cuidar como uma mãe. Portanto, é do baço-pâncreas que vem: a compaixão, a solidariedade, a simpatia, sentimentos importantes que dão sentido à nossa vida.

Solidariedade

Ser solidário, ajudar uma pessoa é sempre muito bom. Todavia, é fundamental ajudar sem tornar o outro dependente ou com a sensação de que é incapaz. Portanto, devemos ajudar sem interferir na vida alheia ou cercear a liberdade do outro. E, talvez o mais importante, ajudar, sem criar expectativas de ser ajudado. Não se preocupe, pois nem sempre colhemos no mesmo jardim, no qual plantamos.

Elemento Terra

Uma pessoa racional, exigente consigo e com os outros, além de crítica, caracteriza bem o elemento Terra. Assim, observamos sinais de desequilíbrio, quando a exigência se torna desmedida, causando sofrimento. E nesse exagero, a crítica vira julgamento, o raciocínio se transforma em ideias fixas, gerando paranoias, desconfianças e comportamento obsessivo.

Viver o presente

Quanto às preocupações, lembra da minha mãe? O que me incomodava, mesmo sendo pequenina, não era a sua disposição, a capacidade de planejar e fazer tudo da melhor maneira possível (atitudes que admiro nela até hoje), e sim, o fato dela estar sempre um passo à frente, ou seja, servia o almoço, pensando na sobremesa; servia a sobremesa pensando no café; servia o café tentando não se esquecer do pratinho que preparou para o convidado levar para casa e, assim, não curtia e nem vivenciava inteiramente cada momento.

Confiar no futuro

A preocupação nos coloca sempre à frente, como se tivéssemos que nos preparar caso algo dê errado no futuro, impedindo-nos vivenciar plenamente o momento presente. Uma reflexão se torna indispensável, inclusive para não perdermos a nossa energia tão preciosa: será a preocupação fruto de algo que podemos resolver e dependa de nossa atitude? Ou algo que não está ao nosso alcance e não dependa de nós?

Se for algo que cabe a nós, então é necessário usar a energia para buscar soluções, estratégias, mobilizar esforços para tentar resolver a questão. Assim, após fazermos tudo o que está ao nosso alcance, devemos soltar e confiar.

Caso não dependa de nós, precisamos olhar com serenidade, aquietar o coração e confiar no outro e na sabedoria da vida.

Deixar a vida fluir

Soltar, desapegar…  Enfim, deixar a vida fluir dentro e através de nós, ao invés de sairmos  correndo desesperados atrás da vida. Fazer do presente não somente um trampolim para o futuro ou passado, e sim, um momento especial onde tudo acontece, pois é o único, na nossa existência em que temos acesso.

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